"As novas barragens" na Grande Reportagem deste domingo

Está em marcha a maior iniciativa de construção de barragens desde a década de 60. Nove grandes empreendimentos hidroeléctricos deverão entrar em funcionamento nos próximos anos. Nos governos de José Sócrates, foram anunciados como forma de reduzir a dependência energética externa, criar emprego e promover o desenvolvimento local.
Com o plano de resgate financeiro em curso, há quem questione a racionalidade destes investimentos. Os críticos do programa nacional de barragens garantem que o país tem mais a perder do que a ganhar.
Em Outubro de 2007, foi lançado o Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico. José Sócrates tinha chegado ao Governo há 2 anos. No programa eleitoral, fixara o objectivo de criar de 150 mil empregos e prometera apostar na produção de electricidade a partir de fontes renováveis. A grande hídrica não constava do programa eleitoral, mas a energia eólica sim.
A iniciativa pública para a construção de 10 barragens foi apresentada com objectivos de interesse nacional, desde logo, o de reduzir a dependência energética externa do país.
O Presidente do Instituto da Água defende o programa que o INAG desenhou: "Nós não temos petróleo nem gás, o nosso petróleo e o nosso gás é a água", assegura Orlando Borges.
Das 10 barragens que foram a concurso internacional, em 2008, 8 foram concessionadas. Fridão, Foz-Tua e Alvito à EDP; Padroselos, Alto Tâmega, Daivões e Gouvães à Iberdrola; e Girabolhos à Endesa. Padroselos acabou por ser chumbada na avaliação de impacto ambiental, devido ao aparecimento de uma espécie rara de bivalve. Além das 7 incluídas no Programa Nacional, outras 2, Ribeiradio e Sabor estão a ser construídas pela EDP.
Nos vários locais onde está prevista a construção de novas barragens esgrimem-se argumentos a favor e contra. Mas, com o plano de resgate financeiro em curso, é preciso olhar para a situação do país.
Os críticos da aposta nas barragens avisam que o investimento inicial de 3 mil e 600 milhões de euros há-de reflectir-se na factura dos consumidores, multiplicado várias vezes. Pelas contas de Joanaz de Melo, professor do curso de Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa (FCT UNL), o encargo total será "mais de 15 mil milhões de euros sobre os bolsos dos consumidores contribuintes."
Quanto à redução da factura energética externa, o docente da FCT UNL garante que quase não se fará sentir. As novas barragens terão uma produção média estimada por ano de cerca de 2000 GWh, 3,8% do consumo de electricidade em Portugal. Em 2010 o país consumiu 52 200 GWh de electricidade, mais 4,7% do que no ano anterior. Ou seja, a produção das novas barragens nem sequer chega para cobrir o aumento do consumo.

AS NOVAS BARRAGENS
Jornalista - Carla Castelo;
Repórter de Imagem - Jorge Pelicano;
Edição de Imagem - Ricardo Piano;
Grafismo - Cláudia Ganhão;
Produção - Isabel Mendonça;
Coordenação - Cândida Pinto;
Direcção - Alcides Vieira.

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