Jorge Mourato >> "Na altura das Noites Marcianas propuseram-me contrato de exclusividade"

Laços de Sangue, SIC, marca a estreia de Jorge Mourato nas novelas. O actor, que dá vida ao sensível Lourenço, está a viver também, tal como a sua personagem, a expectativa da chegada do primeiro filho. Sara Rico, com quem se casou há um ano, está grávida de quatro meses. Mourato já sabe o sexo do bebé, mas prefere guardar segredo...
A sua personagem é subserviente à mulher. Já lhe chamaram "banana" na rua?
Não. É engraçado porque era uma palavra que vinha no guião. Achámos por bem retirá-la porque o que se procura ali não é mostrar a subserviência da personagem, mas sim o amor que ela tem pela mulher. O que me dizem na rua é "você trata muito bem a sua mulher!" É assim que elas devem ser tratadas.
Laços de Sangue é um êxito de audiências. Qual é o segredo do sucesso deste projecto?
Em todos os episódios acontece alguma coisa nova, todas as personagens vão cruzar-se a determinada altura. E a escrita. Temos bons escritores em Portugal e a chancela da Globo veio dar ainda mais brilho. O humor na novela está q.b.. Não é uma novela transformada em comédia e apresentam-se também temas do dia-a-dia. Esse é o papel da novela tal como o da televisão. Não serve para educar, serve para distrair.
O Jorge apareceu na altura de um boom humorístico com o Levanta-te e Ri.
Deixei de fazer stand-up comedy porque achei que havia muitos colegas meus a fazer muito melhor e eu precisava de uma personagem atrás para poder fazer o texto. Quando uma pessoa escreve para si, a coisa sai de outra maneira. Gosto de escrever, até tenho uma certa facilidade em fazê-lo, mas gosto que me dêem um texto para depois torná-lo melhor. Ou não! Escrever para mim é difícil.
Isso é insegurança?
Sim. Os actores são sempre inseguros.
A peça Apanhados na Rede [encenada por António Feio] vai estar em cena no Coliseu do Porto de 23 a 26 de Fevereiro. Quando sobe ao palco sente a presença do António?
Sim. Lembro-me sempre do António, fixo uma fotografia dele... É uma fotografia muito bonita, com o sorriso fantástico que ele tinha. Antes de entrar em palco recordo sempre essa imagem e o espírito do António está muito presente pelo amor que há entre o elenco.
Como é que um rapaz da Marinha Grande foi parar aos palcos?
Sempre quis fazer teatro. Os meus pais não eram muito fãs da ideia, queriam que eu tivesse um diploma. Eu fiz-lhes a vontade, formei-me em Ciência Política...
Porquê Ciência Política?
Queria Comunicação Social. Isto foi na altura da prova geral de acesso. A PGA lixou-me a média e depois foi o primeiro ano de Ciência Política. Gostava muito de Relações Internacionais, tenho uma grande facilidade em línguas... mas continuei sempre a fazer teatro. O bichinho esteve sempre cá. Acabei o curso e disse aos meus pais "pronto, está aqui o diploma, agora vou fazer-me à vida, vou fazer um curso de teatro".
Eles agora são seus fãs?
São fãs, mas, como bons pais que são, são temerosos pelo futuro do filho.
Mesmo quando o filho tem 36 anos?E a passar recibos verdes há 16...É uma situação frustrante?
Uma pessoa que trabalha em regime precário não tem segurança nenhuma. Paga-se a Segurança Social, para não termos direito a praticamente nada. A própria classe política portuguesa nunca deu o devido reconhecimento à arte e à cultura.
Tem filhos?
[pausa] Vou ter. A minha mulher está grávida de quatro meses.
Já sabe o sexo do bebé?
Sei, mas prefiro manter segredo... Estou muito contente.
Agora que vai ser pai, preocupa-o a precariedade da sua profissão?
Claro que sim. Tento sempre a ver o copo meio cheio. Sou um optimista por natureza. Mas, quando nos pomos na situação de progenitores e responsáveis por uma vida, a coisa fica diferente.
A sua personagem também vai ser pai. É caso para dizer que a realidade imita a ficção.
Se eu lhe disser que soube que a minha mulher estava grávida no dia em que a Gabriela me diz que está grávida, então a ficção mistura-se mesmo com a realidade [risos]!
Isso foi um momento twilight...
Foi mesmo... às 5.30 da manhã fiquei a saber que a minha mulher estava grávida e às 9.30 gravei a cena em que a Gabriela me diz: "Lourenço, estou grávida..." Agora interpretar o Lourenço tem muito mais significado.
Já escolheram o nome?
Já... mas não vou dizer-lhe.
Vai dar aulas de representação num curso da Academia Art!st. Da sua experiência anterior, há muita gente que acha que ser actor é sinónimo de ser famoso?
Isso é a primeira coisa que lhes digo: "Se vieram para ser famosos e aparecerem em revistas, podem sair já por aquela porta." Se querem ser famosos, vão a festas, a cocktails... As pessoas que procuram cursos de teatro pensam primeiro em ser famosos e só depois na profissão.
Imagine que está a contracenar com alguém que não tem formação como actor e que é uma cara bonita que chegou à representação. Incomoda-o?
Não, desde que tenha talento...
E quando manifestamente se percebe que não tem?
[suspiro] É o mesmo que estar a jogar futebol com um tipo que tem dois pés esquerdos. Temos de lhe passar a bola à mesma. Trabalho e talento são duas coisas que estão aliadas. Se se tiver talento e não se trabalhar para o fazer brilhar, não se consegue nada. E pode ter-se muita energia, mas se o talento não estiver lá... Acho que se pode dar uma oportunidade às pessoas. Uma pessoa não nasce actor, vai-se fazendo. Há caras da nossa praça que eram manequins e que hoje são consagrados como actores.
A SIC nunca lhe ofereceu um contrato de exclusividade?
No início, na altura das Noites Marcianas, foi-me proposto, mas eu não quis, porque achava que ia estar preso a um canal. Mas se me oferecessem hoje um contrato de exclusividade ia pensar muito bem... Lá está, é uma segurança.
JN

Comentários